História Enduro do Jurão

Em 1987 o TCC criou o primeiro Torneio Curitibano de Enduro composto por 4 provas na região metropolitana de Curitiba.

Eu, Marcos Werlang na época era conhecido por Marcos Salware, depois foi mudando para “Verlangue” e atualmente me chamam de “Overlangue” ou simplesmente “Over”.

Naquele tempo haviam três categorias, a Graduado, a Senior e a Estreantes. Logo depois, para diferenciar os “tochas” criaram a categoria Especial. A categoria especial largava na frente dos Master e os especiais eram os “top five”. O objetivo era para que os Graduados não “atrapalhassem” os “especiais”. Mais tarde mudaram para Master, Senior e Junior.

O conceito de enduro também era bem diferente dos atuais. Prevalecia a regularidade com dificuldade. Os hodometros eram mecânicos que marcavam de 100 em 100m. As tulipas tinham uma tolerância de 50 metros para mais ou para menos, portanto era primordial prestar atenção nos “detalhes” das tulipas e das entradas de trilhas que “pareciam” mas não eram.

As médias eram mais baixas, os PCs eram manjados, sempre ficavam logo depois de um sufoco, um atoleiro, um rio ou uma pegadinha sacana. PC ao contrário era normal e a tolerância era de 30 segundos para zerar o PC.. O registro dos PCs era com boleto. Voce parava, o teu numero e horário era anotado manualmente e o boleto era entregue para você. Este boleto servia de “comprovante” de passagem no PC e para conferir a exatidão dos horários anotados.

Depois da prova, todos os boletos de todos os PCs precisavam ser digitados manualmente. Em média haviam 20 PC e 150 pilotos, ou seja, o resultado sempre saía dois ou três dias depois. Aqui em Curitiba, a largada e a chegada eram na lanchonete Splash na Av. Batel onde hoje está o Mc Donalds. O resultado saia nas 4as feiras à noite, revestido de muito mistério e sempre com sorteio de brindes fornecidos pelos fornecedores, entre eles cito a Motocycle e a Freeway.

Para controlar a média com o tempo ideal, usavam se um relógio digital Casio, uma tabelinha de metros X velocidade e para os mais abonados uma maquininha denominada de Rally Control.

As planilhas eram de papel com folhas grampeadas e eram entregues na hora da largada.

Com o vento as folhas voavam então “inventou-se” o elastiquinho de dinheiro para prender as folhas.

Praticamente todos os pilotos tinham apelidos e através deles eram conhecidos, entre eles cito: Minhoca, Bururú, Morto, Zé Galinha, Kid Vinil, Capitão Gay, Vermelho, Jurãocoski, Nibéti, Rubão, X-1, Zé Neto, Dresch, Renatão, Fiedler, Rikaralho, Banana, Polenta, Pomerode, Kaled, Peninha, Tomate, Tenório, Turco, Polaco Preto, Pataca, Palhoça e tantos outros.

Com o tempo aprendeu-se de que dobrar as pontas das folhas (orelha) facilitava o manuseio de “arrancar” a folha, e que também se, se prendesse as folhas individualmente com o elástico, tudo ficava mais fácil, até na hora em que começasse a chover.

Então o professor Pardal inventou o plástico transparente para cobrir as folhas, com isto evitava-se que as folhas empapassem com a chuva….

Naquele tempo era normal (apesar dos 30 segundos de tolerância) você perder 5, 6 ou 7 mil pontos. Na categoria estreantes quem perdesse 13.000 pontos era candidato ao troféu.

Lembro quando pela primeira vez um piloto de ponta rompeu a barreira dos 1.000 pontos perdidos, foi o Claudio (Schettini) Morto que numa prova perdeu menos de 1.000 pontos, aquilo foi um huuuuuu da galera. Coisa de super homem.

Era permitido fazer aferição na semana que antecedia a prova. Fornecia se um determinado trecho para que se pudesse aferir o “quebra queixo” (nome dado ao hodometro que permitia o ajuste para frente ou para tras, e o meio termo seria os hipotéticos 50m).

Marca do pneu e calibragem faziam “diferença” e esta diferença você compensava mentalmente para mais ou para menos.

Os jalecos eram numerados na frente e no verso, mais tarde eliminaram o numero nas nas costas pois muitos “jurões” ficavam borboleteando o numeral da frente.

Dito isto, com exceção dos “dinossauros” todos podem imaginar como era uma prova de enduro. Isto sem falar nos PCs que ficavam escondidos ou que induziam o piloto ao erro.

Pois bem, eu como um “eterno aprendiz”, pensava com os meus botões: “os Graduados só ganham as provas pois andam na frente, não tem congestionamento de motos nos atoleiros, não tem quem atrapalha na travessia do rio e etc….

Imaginei que se os Graduados largassem lá atrás com certeza não ganhariam a prova, ou não perderiam tão poucos pontos.

Naquele tempo as categorias eram bem distintas, os graduados eram idolatrados e faziam parte de uma “nata” onde nós os meros mortais não tinhamos acesso.

E então, como começou o Jurão?

A primeira prova do Enduro do Jurão foi em 1988, prova extra oficial.

Jurão era o nome dado ao famoso “braço curto”, ao “zé mané”, ao famoso “pescoço” ou ao “rôia” como é dito lá nas Alterosas.

Fizemos então uma equipe de quatro “jurões” que eram o Carlos Vendrametto, o Sidnei Gonçalves Fernandes (Paulista (in memorium)), o Rene Dalitz (Deka) e eu.

O nome sugestivo de Jurão foi adotado. Dificultar as coisas para os “graduados” era a ideia e assim sendo, para começar inventamos a largada invertida, onde os “jurões” largariam na frente e os graduados no final.
Usamos a base de um enduro que havia sido feito na região de Almirante Tamandaré e o Bar da Canelinha, voltando por Santa Felicidade.

Em resumo, dada a largada, com menos de 30 minutos os graduados já estavam ultrapassando todos os “jurões” e com isto ficou provado de que largar na frente não é a garantia da vitória.

O Enduro do Jurão foi um laboratório para várias experiências e situações fora do padrão, entre elas a largada invertida, jaleco com numeral só na frente, média única para todas as categorias, média fixa em toda a prova, utilização de filmadoras nos PCs de roteiro, ordem de largada de acordo com a ordem de inscrição, entrega da planilha com bastante antecedência mas sem a primeira página, média única e fixa para todas categorias, prova com hodometro corrido (sem zerar o hodometro durante a prova).

Alem da largada invertida, o foco principal do enduro do Jurão sempre foi o de privilegiar os “menos experientes” com médias compatíveis, trechos transponíveis mas que exigissem muita atenção no roteiro e na navegação.

Um abraço à todos da Ekiperdida e precisando, estou à disposição para ajudar no que for preciso.

Fev/2019 – Marcos Werlang